Nos Igarapés do Igapó
Parte I
Estávamos em 2025 quando a Lu falou: — Ano que vem faremos
40 anos de casados.
Lembrei dos anos vividos, da parceria, da amizade, do
namoro. Dessa coisa gostosa de eu estar na vida da Lu e ela na minha; dos
desafios e superações; das alegrias e tristezas; das lágrimas, dos sorrisos e
de nossos passeios e viagens.
Pensei, num primeiro momento, em irmos para o Nordeste,
algum lugar que ainda não conhecíamos. Aí a Lu veio com a sugestão: — Vamos
fazer um cruzeiro no Rio Negro, no Amazonas. Uma amiga fez e disse que é muito
legal.
Confesso que estranhei a proposta, mas ela me mostrou o
roteiro, o navio da Ibero Star, os passeios pelo igapó e pelos igarapés, e
achei tudo muito interessante.
Definimos nosso pacote: chegada em Manaus no sábado;
embarque no navio na segunda; desembarque na sexta; retorno para Floripa no
domingo.
Com tudo definido, partimos para Manaus, que fica, de avião,
a uns 3 mil quilômetros de Floripa.
Parte II
Pegamos nosso voo em Floripa às 4h50, com escala em São
Paulo, e chegamos a Manaus às 10h50 — lembrando que o fuso horário de Manaus é
uma hora a menos que o de Brasília.
Nesse primeiro final de semana em Manaus, demos uma volta
pela cidade, visitamos o MUSA (Museu da Amazônia) e jantamos no restaurante
Caxiri.
No MUSA, nosso guia nos mostrou e explicou sobre serpentes,
aracnídeos, borboletas, cogumelos, fungos, peixes, vitórias-amazônicas e toda a
diversidade biológica e cultural presentes no bioma. Subimos também a torre de
observação de 42 metros, de onde se tem uma vista panorâmica de 360 graus da
copa das árvores da reserva florestal.
No Caxiri, degustamos pratos da culinária local — uma bela
surpresa em sabores e temperos: pirarucu, tambaqui, camarão, jambu etc.,
acompanhados de bebidas com taperebá e cumaru.
Parte III
Na segunda-feira, às 16 horas, embarcamos no navio Ibero
Star e zarpamos às 18 horas para nossa aventura pelo Rio Negro.
Os dias de passeio foram marcados pelo novo, pelo belo, pelo
inusitado. Navegamos pelo rio, entramos nos igarapés, visitamos uma comunidade
indígena, conversamos com os moradores, conhecemos a escola — referência para
as comunidades próximas — assistimos a uma apresentação de dança e tomamos um
banho energizante no Rio Negro.
Visitamos a casa do seringueiro, onde aprendemos sobre o
ciclo da borracha e o que ele representou para o povo, para as comunidades e
para a cidade de Manaus. Um ciclo marcado por sofrimento, escravidão, opressão
e morte para a grande maioria, e por riqueza, ostentação e domínio para aqueles
que detinham o poder e o dinheiro. Uma história pouco conhecida por nós.
Visitamos também a casa do caboclo, onde aprendemos sobre a
plantação e a colheita da mandioca, seus tipos, as ferramentas para descascar,
moer, extrair a goma, assar a tapioca no tacho e, claro, saborear. Conhecemos
as árvores da castanha, do cumaru, do taperebá, do cupuaçu, do urucum e do
açaí. Comemos castanhas in natura e tomamos o açaí também in natura.
Além desses passeios, todos os dias tivemos o privilégio de
assistir a palestras sobre fauna, flora e cultura do Amazonas — um verdadeiro
banho de aprendizados.
Na quita feira à noite, fomos presenteados com o jantar com
o capitão do navio. Após o jantar assistimos a uma apresentação cujo tema foi o
festival de Parintins com os bois Garantido e Caprichoso. Belíssimo
Parte IV
Na sexta-feira retornamos a Manaus e, à noite, fomos
assistir à ópera Salvator Rosa, de Carlos Gomes, no Teatro Amazonas.
Simplesmente belo, magnífico. Nunca havíamos assistido a uma ópera, e ver a
primeira justamente no Teatro Amazonas é um presente dos deuses — algo que não
consigo traduzir em palavras.
No sábado, mais uma surpresa: visitamos o Centro Cultural
dos Povos da Amazônia, o museu, a réplica de uma maloca e um espaço dedicado a
Samuel Benchimol.
Nunca havia ouvido ou lido nada sobre Samuel, que, no meu
entendimento, todos deveriam conhecer pela grandeza de sua obra e de tudo o que
representou — e ainda representa — para o povo do Amazonas. À noite, fomos
jantar no restaurante Banzeiro e experimentar outros sabores e temperos
amazônicos.
No domingo, retornamos para a soleira do Atlântico Sul.
O bioma Amazônia, entendo eu, é um “sincretismo” de vários
ecossistemas que convivem de forma harmoniosa e complementar. Algo grandioso,
fantástico, belo e único.
Visitar o bioma Amazônia foi algo significativo e mágico
para nós. Aprendemos muito sobre esse pedaço norte do “continente” Brasil: sua história,
sua cultura, sua gente, seus personagens, sua comida, seus mistérios.

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